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01/09/2011

Confissões de Christiane Torloni

Ela abriu uma janela e deixou ver quem é. Christiane Torloni revelou suas manias, o lado plebeia, a brasileira majestosa, de opinião, a amante dos vinhos e... a mulher comum 


Numa quarta-feira cinza, Christiane Torloni aparece de robe branco, grandes bobes no megahair e sandálias altas. Está terminando a sessão de maquiagem, que lhe custou duas horas, num camarim improvisado para uma gravação externa da novela Fina Estampa, da Globo. Tinha dispensado ajuda para pintar olhos e boca e checado o figurino da sua hipervilã, Tereza Cristina. Não recebo beijinhos. A atriz me estende a mão direita, num cumprimento formal, enquanto diz um rápido “muito prazer” e olha ao redor em busca de lugar para sentarmos. Penso que seus gestos remetem a certa fidalguia, mas nada nela parece forjado: sua pose de majestade é natural. Quando a conversa embala, outra Christiane, menos contida, desponta: aquela que, aos 54 anos, se orgulha de ter vivido fracassos e sucessos, grandes amores, muitos sonhos e pesadelos. Essa mulher tenaz – que também me deixa ver suas nuances frágeis – faz confidências. Uma delas: “Levo bronca dos meus pais até hoje. Eles reclamam que engulo o final das falas em cena, dizem que como pouco”. Admite que as advertências da dupla, os atores Monah Delacy e Geraldo Matheus, a tornam uma pessoa melhor. “Eles são sábios. Nossa relação serve de exemplo para o meu filho.” Rigorosa em excesso com ela mesma, conta que não se permite engordar mais do que 2 quilos, decora textos na esteira e não come carne de frango. Chris se fez hábil em rever seus erros na análise, se considera uma “viajante interior”, uma “caçadora” de si. Com essa disposição, revela outros lados de sua personalidade e reflexões recentes, que divido aqui.

Casa, descasa

Ao lado de Antonio Fagundes, na novela A Viagem (1994)

 Aos 19 anos, fez a primeira novela: Duas Vidas (1976) e logo casou-se com o diretor Dennis Carvalho, com quem teve gêmeos. Depois, juntou-se ao psiquiatra Eduardo Mascarenhas, morto em 1997, e mais tarde ao artista plástico Luiz Pizarro. Ano passado, separou-se do diretor de TV Ignácio Coqueiro após 15 anos de relação. “Talvez eu seja como Liz Taylor (atriz americana que teve oito maridos). Ninguém diz para si mesmo: ‘Vou me casar dez vezes’.” As razões de uma separação, explica ela, se resumem a duas ou três aos 20 anos. Aos 50, passam a ser numerosas o suficiente para criar uma tese. “Dizem que o amor acaba. Não creio. O que sei é que o sentimento não sustenta, por si só, um relacionamento.” Christiane e Ignácio haviam afastado dissabores morando em endereços distintos. “Desmontar uma casa é um processo que envolve emoções tão fortes quanto montar. Só que são antagônicas. Quando cada um tem seu espaço, não precisa desfazer nada. Há dores que me recuso a voltar a ter”, conta. Está sem planos para amar. “Um casamento de 15 anos não se substitui de repente.” Anda evitando perigos. “Não quero descobrir que estou com alguém cuja real intenção seja entrar para o BBB ou postar a minha foto, dormindo, na internet.” Está arisca: “Não adianta trabalhar numa fantasia romântica sem ter com quem compartilhá-la”. Detesta dar satisfação aos homens, mas oscila: “Não é todo mundo que aguenta a solidão”.

Como Melissa, em 2009, na trama Caminho das Índias


 Perda de um filho


Em 1991, um drama interrompeu sua carreira. Um dos gêmeos, Guilherme, morreu aos 11 anos num acidente com o carro que ela manobrava. De luto, separou-se de Dennis e seguiu para Portugal. Na volta, em 1994, retomou a profissão. Diz que teve sorte por não engravidar de novo. “Assim, não precisei enfrentar a aflição do aborto. Mas não evitei; os filhos não foram desejados e não se materializaram.” Com Dennis, ocorreu uma conjunção positiva. “As crianças vieram na hora em que estava aberta para recebê-las.” Ainda sente a perda do filho: “A morte dele doerá sempre. Vou sofrer até o último dia da minha vida” Quando a saudade dói, reza, faz ioga, canta, anda de bicicleta, cuida do jardim, dos quatro gatos, toma florais. Ou janta com o filho Leonardo, 32 anos, ator. “Ele não mora comigo. Está namorando. Vou adorar se me trouxer netos.”

 

 Em paz com a grana

 

Christiane é refinada, não é de ostentar. Tem o mesmo carro há 15 anos, uma BMW, que só a deixou na mão uma vez: “Quando esqueci de pôr gasolina”. Vive “muito bem esta vida” por não ter certeza da reencarnação. “Voltei de uma viagem à Índia cheia de dúvidas”, conta. É dona de um belo sítio em Nova Friburgo (RJ), onde plantou palmeiras imperiais, e ama vinhos. “Já posso pagar por garrafas melhores.” Seus bens vêm de cachês de cinema, teatro, TV e de revistas masculinas – posou nua três vezes e só o fará de novo se as cifras trouxerem mudança patrimonial. “A safra de 57 vale uma fortuna”, diz, referindo-se ao ano em que nasceu. Ela mantém ótima relação com o dinheiro. Suas palavras de ordem: “A pessoa deve saber se quantificar; a vida é uma relação de valores”. Traduzindo: ela cobra caro. Só lamenta não poder bancar uma viagem pela órbita terrestre. “Adoraria ter essa perspectiva do planeta que amo.” Parte dele, a atriz protege com o projeto Amazônia para Sempre, que reuniu 1 milhão de assinaturas pelo fim do desmatamento em 2009. A ideia surgiu ao gravar a minissérie Amazônia – De Galvez a Chico Mendes, em 2007. Hoje prepara um documentário sobre a floresta e os povos indígenas e está ligada na pegada ecológica, medida que avalia a sustentabilidade de pessoas e empresas. “Custo muito para o planeta. São horas de secador, quilos de maquiagem e xampu. Estou fazendo um inventário e vou pagar meus créditos de carbono.” Diz ainda que carrega “vários arrependimentos”, mas não os revela. “Deixei de ser pessoa física e virei jurídica. Prefiro me calar.” Ela se levanta para gravar mais uma cena e me dirige um aceno. Se cheguei perto de desvendá-la, nunca saberei. Mas um pouco de mistério lhe cai bem.

 

 

“Minha mãe não é tão forte quanto parece”

Por Leonardo Carvalho
“Ela é exemplo de superação, mas tem um lado frágil que a maioria desconhece. Às vezes, é uma menina, cheia de dúvidas e preocupações. Por causa de sua postura altiva, as pessoas acreditam que minha mãe funciona como uma usina de força, ligada 24 horas por dia. Não é real. O que faz a diferença é sua persistência – nunca a vi fraquejar. Foi assim quando nos mudamos para Portugal, apenas nós dois, depois da morte do meu irmão. Ela teve de aprender do zero a cuidar de um filho, começou a cozinhar, a passar roupa. Eu era o único garoto do colégio que usava um paletó queimado. Claro, é superprotetora – somos uma família pequena. Ela telefona, quer saber se estou comendo direito, se preciso de algo. Admiro sua luta pela Amazônia. É uma mulher que exerce o que prega, condena o consumismo. Eu vestia roupas surradas e não percebia, porque minha mãe nunca ligou para grifes – usa a mesma calça de couro há anos. Tenho de obrigá-la a trocar a geladeira ou o micro-ondas, que começam a cair aos pedaços. Se vou buscá-la e deixo o carro ligado enquanto espero, levo bronca.”



Foto Danilo Borges / Realização Denise Dahdah / Styling Marcell Maia e Alexandra Thomaz / Produção Thiago Biagi/Cabelo Marco Antonio Di Biaggi e Maquiagem Kaká Moraes, ambos do salão MG Hair Design/ Blusa Lilly Sarti, jeans Amapô para Surface to Air, pulseira Patachou

Fonte : Claudia

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