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12/08/2010

Christiane Torloni - Atriz fala sobre seu polêmico papel em “A Loba de Ray-Ban”


Vinte e dois anos depois de interpretar Julia Ferraz, mulher do personagem de Raul Cortez em “O Lobo de Ray-Ban”, Christiane Torloni dá vida a novo triângulo amoroso ao lado de Leonardo Franco e Maria Maya na peça "A Loba de Ray-Ban". Tendo o teatro como pano de fundo, a montagem mostra o envolvimento de Julia com uma jovem atriz enquanto vive um casamento com o personagem de Franco. O ciúme e a competição entre o casal afloram à medida que o relacionamento entre as duas vai se firmando. A versão feminina foi escrita por Renato Borghi ao mesmo tempo em que ele criava o texto original, e é dirigida por José Possi Neto, que também esteve à frente de “O Lobo de Ray-Ban”. Em cartaz, no Rio de Janeiro, Christiane conta que, após o término da temporada carioca, vai levar o espetáculo a Goiânia, Belo Horizonte, Palmas e Vitória com preços acessíveis. Nesta entrevista exclusiva, Christiane revela a importância desta peça em sua carreira, aborda o preconceito homossexual e conta como foi a escolha de Maria Maya para fazer parte do elenco.

Como é retomar a peça mais de 20 anos depois de estrear “O Lobo de Ray-Ban”?
É nobre. Esse texto foi escrito em 1987 e fiquei neste espetáculo de 87 a 89. Há três anos o Leonardo Franco descobriu esta versão. A essência é a mesma, mas a maneira como as mulheres expressam seus sentimentos é diferente, é uma maneira hemorrágica.

Qual a importância de “O Lobo” na sua carreira?
Quando fiz “Lobo”, já tinha trabalhado em bons papéis no teatro e tinha feito protagonistas na TV, mas essa peça é um divisor de águas na minha carreira teatral. Fiquei dois anos em cartaz ao lado do Raul Cortez, que era genial. A peça me colocou em outro patamar na carreira. Esse trabalho ainda não havia sido concluído, a Julia ainda tinha muito a dizer. Não faço o personagem do Raul, faço a mesma mulher, só que mais madura. Fico muito emocionada com as alegrias que “Lobo” me proporciona até hoje.

Quando você estreou em São Paulo, disse que ouvia o Raul Cortez ao decorar o texto. Isso acontece em cena?
A presença do Raul é tão forte que a gente colocou um retrato dele em cena. Ele é um emblema nesse espetáculo e na vida desta mulher. Existe um fio condutor nessa peça, a direção do Possi, que dirigiu as duas montagens. O Borghi, autor dos dois textos, também dá essa unidade ao espetáculo, já que faz parte disso tudo desde o início.

Como foi a escolha da Maria Maya para viver esse triângulo?
A escolha foi feita por meio de teste. Dois anos e meio atrás ela fez uma leitura e foi a atriz que mais entendeu a personagem. Ela é filha do teatro, tem uma intimidade com o palco que vem desde a infância, por intermédio dos pais. Ela viu todos os meus espetáculos e sempre quis trabalhar comigo, até que fez minha filha em “Caminho das Índias” e agora está em “Loba”. Acredito que , se a gente deseja alguma coisa com muita fé, acontece. Ela é de uma geração na qual os jovens já produzem as próprias peças. Maria realmente tem o teatro em seu coração.

Como você define a sua personagem?

Uma mulher solitária, da noite, livre como uma loba. É apaixonada, você consegue enxergar nela muito amor e muita dor. É muito bonito ver o público entrar na história e respirar junto com você. Às vezes percebo a plateia sem ar, assim como eu em cena.

Você acha que o público se identifica com o espetáculo por abordar sentimentos comuns a todos, como amor, ciúme e traição?

Acredito que sim. Toda a tecnologia existente não é capaz de fazer o homem completamente feliz. Nós somos de carne e osso, precisamos de relações de verdade, com contato cara a cara. Esses sentimentos vão fazer parte da vida dos seres humanos para sempre, não somos imunes a isso. Vejo na plateia pessoas de todas as idades e pretendemos chegar cada vez mais perto do público com preços mais baixos. No Rio, já estamos com esse projeto e vamos adotá-lo no resto da turnê.

Houve algum preconceito por conta do envolvimento amoroso entre duas mulheres no palco?

Na nossa cultura, a figura da mulher é quase intocável,porque ela remete à imagem de mãe, provedora. Existe uma grande hipocrisia com o lesbianismo. Relações entre duas mulheres e um homem são absolvidas pela sociedade, mas o relacionamento apenas entre elas não é visto com bons olhos. O “Lobo” incomodava muito, principalmente ao sexo masculino, que não gostava de ver homens juntos. Por outro lado, o triângulo com duas mulheres é excitante para muita gente e o relacionamento bissexual entre elas é aceito na sociedade por incluir a figura masculina. As sexualidades são muito discutidas neste espetáculo. A minha personagem não tem problema nenhum com isso, ela acha muito natural, quem não pensa dessa maneira são os outros. Pessoas livres costumam incomodar.

Como é ser dirigida pelo José Possi Neto?
É um prazer e um desafio. Já montamos sete espetáculos juntos. Temos uma parceria enorme e ficamos muito felizes em poder trabalhar ao lado do outro.

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