Image Map

01/08/2012

Entrevista com Christiane Torloni: “Sensualidade não tem idade”

Aos 55 anos, atriz se livra de vez da vilã Tereza Cristina, seu sucesso mais recente, e exibe sua beleza dançando no teatro no papel de uma deusa hindu. Ela jura que não se curva à ditadura da juventude: “lido com o meu tempo no meu tempo” -



Quatro meses depois de se despedir da vilã Tereza Cristina, de "Fina Estampa", Christiane Torloni encarna uma deusa hindu no teatro. Ela é a protagonista do espetáculo "Teu Corpo É Meu Texto", peça em que, ao lado de bailarinos profissionais, ensaia passos de bolero e de balé clássico. “É uma vivência mesmo, um desafio”, conta a atriz, que, ao longo da carreira, já mostrou talento para a dança em trabalhos como a novela "Kananga do Japão" (1989), a minissérie "Amazônia – De Galvez a Chico Mendes" (2007) e na "Dança dos Famoso"s, quadro do "Domingão do Faustão", que ela venceu em 2008.

Em entrevista a QUEM, a atriz conta que sempre sofreu resistência dos pais, a atriz Monah Delacy, de 82 anos, e o ator Geraldo Matheus, de 80, fundadores do Teatro de Arena, em São Paulo, que não queriam que ela investisse na carreira artística. Aos 55 anos, Christiane, que foi símbolo sexual na década de 80 e já posou nua três vezes, afirma que só tiraria a roupa novamente por muito dinheiro e que não se curva à ditadura da juventude existente hoje. “Não adianta eu querer ser uma coisa que não sou”, justifica a atriz, que ainda não tem planos de voltar à TV, mas está rodando um filme sobre a Amazônia, uma das bandeiras que abraçou nos últimos anos. “Fui criada em uma família de consciência política, é estranha essa morfina que tomou conta de uma geração”, diz.
QUEM: É a primeira vez que você se apresenta com bailarinos profissionais, como tem sido a experiência?
Christiane Torloni:
É uma vivência mesmo, um desafio. É diferente das produções que eu tenho feito com o José Possi Neto, com quem trabalho há 25 anos, porque normalmente trazemos a dança para o teatro. Foi assim em peças como Êxtase (1993) e Salomé (1997). Não estou dançando como bailarina, porque não sou bailarina de formação, mas a peça tem um contexto dramático, um texto a ser dito.
QUEM: Ficou com vontade de fazer musicais?
CT:
Não é que eu não queira fazer. Graças a Deus, vivemos um momento no Brasil em que nossos atores-cantores estão botando pra quebrar, não ficam a dever em nada para a Broadway. E eu não tenho formação de canto. Não sou como Alessandra Maestrini, Marília Pêra ou Bibi Ferreira. Não posso dizer: “Agora vou fazer um musical!”. Não sou louca. Já fui convidada, mas disse que, até para fazer testes, precisaria de seis meses para poder me preparar.
QUEM: O que foi mais difícil, a Dança dos Famosos ou se apresentar agora, ao lado de bailarinos?
CT:
A Dança foi uma aventura amazônica, porque era sempre um ritmo diferente, um vestibular por semana. No espetáculo, eu danço sempre a mesma coreografia, com a mesma trilha.
QUEM: Como você começou a se interessar pela dança?
CT:
Fui criada para ser atleta, não para ser atriz, apesar de meus pais terem praticamente fundado a Escola de Arte Dramática de São Paulo. Era muito duro ser ator há 50 anos, e meus pais não tinham a menor vontade que eu seguisse carreira artística. Quando eu era criança, podia participar de qualquer modalidade atlética, mas artística, não. Fui convidada, quando criança, para fazer espetáculos com o Sérgio Britto, como quando ele montou A Noviça Rebelde, e minha mãe não deixou de jeito nenhum. Só fui fazer minha primeira aula de balé clássico aos 16 anos.
QUEM: O espetáculo explora o corpo dos bailarinos e o seu também. Como lida com sua sensualidade aos 55 anos?
CT:
Lido com meu tempo no meu tempo. Uma pessoa que posou três vezes para a Playboy entre os 25 e 27 anos não pode, aos 55, ser aquela moça. Mas acho que sensualidade não tem idade. Você pode ser uma senhora, aos 80 anos, e ser sensual. Meu pai tem ciúme da minha mãe e minha mãe do meu pai. Ela foi uma mulher muito bonita e hoje é uma senhora linda. Vem de dentro. Como o Brasil é um país jovem, as mulheres estão botando botox aos 30 anos porque se sentem velhas. Existe uma ditadura da juventude.
QUEM: E você não se curva a essa ditadura?
CT:
Não. Vou fazendo minhas personagens, faço as coisas no meu tempo. Não adianta eu querer ser uma coisa que não sou, que já fui ou que ainda não sou.


QUEM: Já fez alguma intervenção estética?
CT:
Já, naturalmente, mas coisas pequenas. Acho que a gente deve ser o mais delicado possível com a nossa natureza, porque ninguém é perfeito. O bonito na gente é a assimetria. As meninas de 15 anos ficam desesperadas, querem botar peito, tirar. Vai ser mãe, vai ser tudo primeiro! Na Europa, você não vê essa loucura.
QUEM: Posaria nua novamente?
CT:
Não teriam dinheiro para me pagar. Atualmente, teria que estar num humor muito especial para posar nua de novo. E teria que ser um dinheiro que mudasse totalmente meu patrimônio.
QUEM: Como mantém a forma?
CT:
Eu tenho a rotina de quem quer manter o corpo saudável. Tento me alimentar bem, dormir bem, ter uma prática física. Cada um vai descobrindo o que gosta de fazer.
QUEM: E o que você gosta de fazer?
CT:
Como sempre andei de bicicleta, gosto de spinning. Também faço, há muitos anos, ioga em casa, é uma prática metafísica. As pessoas me perguntam o que devem fazer e eu respondo: “O que você gostava de fazer quando era criança, gostava de nadar? Então faça isso”. Toda atividade física é lúdica. Não adianta a pessoa ir para uma academia e ficar se machucando. Aquilo que não é feito com alegria não dura. O nosso corpo tem inteligência e sente que o que estamos fazendo vai fazer bem para ele. Desde que me entendo por gente, nado, ando, adoro velejar.
QUEM: Você vive no teatro uma deusa hindu, algo bem diferente da Tereza Cristina. É uma forma de se distanciar de Fina Estampa?
CT:
Não tenho essa preocupação. É como se eu estivesse em uma grande estação de trem: uns personagens vão, outros voltam... A Tereza Cristina é uma personagem que fica numa galeria. Tanto que estou querendo fazer um ano sabático, porque ela merece o lugar dela, merece esse tempo. Ela é uma personagem quase de história em quadrinhos, eu me divertia muito.
QUEM: Você tem o projeto de um filme sobre a Amazônia. O que é?
CT:
Chama-se Amazônia – Da Cidadania à Florestania e o Despertar. É a história de uma rede de pessoas que, há 25 anos, fazia parte de uma rede sem saber disso. Nós lutamos pela redemocratização do Brasil, pela preservação da Amazônia e, quando nos demos conta, estávamos juntos na Praça da Sé (em São Paulo) e depois no Acre. Chico Alencar (deputado federal pelo PSOL) foi meu professor de história no Colégio Andrews e eles botavam fogo para a gente pôr o pé na rua. Fiz palanque, lutei pelas diretas... E, de repente, veio a bandeira da sustentabilidade com a minissérie Amazônia, de Galvez a Chico Mendes. Foi um chamado.
QUEM: Você se considera uma pessoa politicamente engajada?
CT:
Acho importante para o cidadão. Senão, onde você se conecta com o lugar onde está? Você tem que estar conectado com seu espaço, seu tempo. Algumas pessoas vivem de férias na vida, são uma massa de manobra. Não fui criada assim, fui criada em uma família de muita consciência política.
QUEM: Sendo uma pessoa pública, não tem medo de se expor demais se posicionando assim?
CT:
Sou livre e a democracia é isso. A gente não precisa concordar, precisa conviver. E poder expor as minhas ideias é muito bom, dá um tesão na vida. Eu sou assim, não sei ser diferente. Acho estranha essa morfina que tomou conta de uma geração inteira, uma coisa blasé socialmente, politicamente.
QUEM: Acha as novas gerações apáticas?
CT:
Não sei, acho que existe uma falta de esperança. Nem todos os políticos são corruptos, mas, se as pessoas não fazem nada, os que são vão continuar sendo.



 Matéria digitalizada




Um comentário:

Anônimo disse...

Para quem tiver curiosidade a marca do moletom dela é CAVALERA...