3 de abril de 2010

Christiane Torloni diz como superou a morte do filho



Em “Chico Xavier”, o filme que conta a história do médium mais famoso do Brasil, em cartaz desde ontem nos cinemas do país, a atriz Christiane Torloni vive Glória, uma mãe que perdeu o filho, assassinado acidentalmente por um amigo. Infelizmente, Christiane conhece bem essa dor, e não só da ficção. Seu filho Guilherme morreu aos 12 anos, em um acidente com o carro que a própria Christiane dirigia. Hoje, quase 20 anos depois, ela se firmou como uma das atrizes de maior destaque da televisão brasileira. Mas diz que chegou a pensar em desistir da carreira enquanto enfrentava os primeiros momentos do luto. Se meu instrumento de trabalho é o coração, como eu iria trabalhar com o coração despedaçado?”. Mas como é possível se recuperar de uma tragédia dessas? “Você tem de aprender a viver de novo sem um pedaço de você”, diz Christiane, que empresta a própria garra a seus personagens, sempre marcados pela persistência e pela força. Reservada, Christiane raramente fala sobre a perda do filho. Mas aceitou contar ao Mulher 7×7 , de sua casa, no Rio de Janeiro, sua história de superação.

Após a morte do filho, em 1991, Christiane e Leonardo, irmão gêmeo de Guilherme, fecharam-se em um auto-exílio em Portugal. O país despertara a curiosidade de Guilherme alguns meses antes do acidente, quando a mãe fora divulgar a novela Kananga do Japão. Com a morte de Guilherme, Christiane sentiu que lá era o lugar em que deveria “aprender a viver sem um pedaço”. Nos três anos em que passou além-mar, dedicou-se ao teatro em Portugal e veio ao Brasil para gravar a minissérie “Noivas de Copacabana”. Quando decidiu voltar definitivamente ao Brasil, aceitou um papel que era, no mínimo, um desafio: viver a Dinah, de “A Viagem”. A novela de Janete Clair, baseada no espiritismo, conta a história de um casal que morre e volta a se encontrar em outro plano. Se eu não estivesse recuperada, não teria conseguido fazer a novela. Mas a dor de perder um filho não passa nunca. Já faz muito tempo e a única coisa que mudou foi a minha capacidade de lidar com a dor.”


E como é que se faz isso? “Você quer que eu lhe dê uma bula! Isso não existe”, diz Christiane com a voz firme, aquela que eu conheço de suas personagens cheias de determinação das novelas. Mas, quando sua memória parece tocar aqueles primeiros dias de coração despedaçado, como ela diz, sua voz se abranda. Tem o tom de resignação que só alguém que mergulhou em sua própria dor pode ter. “É preciso ser humano”, diz. “Ter paciência com o tempo, com você, com a dor. Isso é ser humano. Mas as pessoas não se dão mais esse direito.” Leia a entrevista na íntegra a seguir.


Mulher 7×7 – Perder um filho é uma das piores dores que um ser humano pode enfrentar. Como você conseguiu se refazer dessa tragédia?
Christiane Torloni – Uma mãe que perde um filho ficará para sempre de luto. Não existe ex-mãe. Vai fazer 20 anos que o Guilherme morreu. É muito tempo. Mas a única coisa que mudou foi a minha capacidade de lidar com a dor. Você precisa continuar vivendo, dia após a dia, lutar para vencer um de cada vez. É a mesma filosofia dos Alcoólicos Anônimos: “só por hoje”.


Muitas pessoas que perderam um ente querido dizem se sentir um peso para os amigos e para a família porque não podem mais falar sobre o assunto para não chatear ninguém. Você sentiu isso?

Existe muito essa cultura do “vamos lá, vamos para frente”. Mas é preciso respeitar essa pessoa porque ela está em dor. Chega a ser uma dor física. Precisamos ter paciência com a avalanche de emoções que se seguirão para se adaptar a um coração que nunca mais vai ser o mesmo. E o ser humano tem passado por cima dessa necessidade de se recolher, não quer ficar triste. Mas é dessa dor que vai vir a força para superar. Não se aprende só na alegria, mas também com a dor. Nesse momento, temos de ser humanos: ter paciência com o tempo, com você, com a dor. Isso é ser humano. Mas as pessoas não se dão mais esse direito.

E você conseguiu se dar esse direito?
Eu saí do Brasil, mudei para Portugal com o meu filho Leonardo. Entrei em uma viagem profunda, me respeitei. Fiz aquilo que os antigos faziam: encarei dar tempo ao tal do tempo. Ele é um remédio quando a gente tem paciência. Isso foi me dando força a voltar a trabalhar. Enquanto eu ainda morava em Portugal, voltei para fazer uma participação na minissérie “Noivas de Copacabana”, mas não foi legal. Eu ainda não estava bem. Estava em dúvida se continuaria sendo atriz. Se meu instrumento de trabalho é o coração, como eu iria trabalhar com o coração despedaçado?



Como você decidiu seguir com a carreira?
Algumas pessoas que aparecem nas nossas vidas são como anjos. O Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, então um dos diretores da TV Globo) ficava me monitorando para saber se estava tudo bem, quando eu gostaria de voltar. A TV Globo me mandava cartas de pessoas que me escreviam e que tinham passado pela mesma experiência. Recebi até cartas psicografadas dizendo para eu não desistir. Eu fui para Portugal para ficar sozinha, mas, no fundo, eu não estava sozinha. Uma rede amorosa se formou em volta de mim. Quando Wolf Maia me convidou para participar de “A Viagem”, eu decidi aceitar antes de saber sobre o que era. Fazer a novela foi muito difícil, mas eu consegui porque havia transformado aquela dor.

Qual conselho você dá para uma pessoa que está passando por esse momento agora?
O melhor conselho é continuar vivendo. Tenha calma e vá sobrevivendo. Essa entrevista, por exemplo, não é para me promover. É porque ela pode ser útil para alguém, pode ajudar alguém. É por isso que eu também aceitei fazer o filme sobre o Chico Xavier.


Fonte : Blog mulher 7x7


Reações:

11 comentários:

Parabéns pela força que vc tem, pois minhafamilia está pasando por tudo iso.Perdemos Vinicius, um garoto com 18 anos há um ano e 1 mês.A dor ainda é muito forte.O luto será para sempre mesmo, pois nunca mais teremos ele em vida, mas sabemos que espiritualmente estaremos sempre juntos.Tentamos superar essa dor indiscutível a cada dia.Perder alguém é como deixar um enorme vazio dentro a gente.Somente com muita fé em Deus, com muito amor da familia e dos amigos conseguiremos superar essas dificuldades.Saber lidar com a dor é ainda muito difícil.Como Christiane disse, doi até fisicamente, mas temos que tentar e superar, para vivermos em paz.Um abraço.Marcia

Parabéns pela atriz q és!!! E essa força tenha certeza veio do alto.. Q Deus continue te abençoando!!!
Bjuss.

Christiane Torloni é dessas atrizes que detém a admiração do público desde o primeiro momento em que apareceu na cena de todos os palcos. Não só por seu talento logo notado, como também por sua capacidade de multiplicar-se em muitas Torloni, dada a sua disponibilidade e versatilidade. Não me refiro a outras supostas vidas, estou falando de nossa vida aqui, terrena e única, mas onde podemos exercer todo o nosso Humanismo. A propósito, desconfio muito dessa ideia de que temos um espírito, sobretudo quando se sabe que o conceito de espírito surgiu a partir do fenômeno do sonho, quando os povos primitivos acreditavam que o sonho era uma entidade que saía e voltava ao corpo. Descobriu-se que as palavras sonho e alma, ou espírito, em várias línguas primitivas são iguais ou assemelhadas. Em meu livro O Garoto Que Queria Ser Deus seus personagens, através de dezenas de diálogos, fazem esses tipos de perguntas: Todo esse mundo do além ou do transcendente não seria resultado de nossa inconformidade com a finitude da vida? Os livros santos de todos os credos são verdadeiros ou são mitologias, lendas e fábulas milenares? Deus existe ou é uma invenção de homens primitivos conservada pelo homem moderno por razões de conveniência? As religiãos seriam superstições mais elaboradas?

admiro vc cada dia mas,muita gente se espelha no que tu es mesmo depois disso tudo,continue com este trabalho lindo.nos te amamos.

Christiane, admiro voce por sua força e sua persistencia, voce nunca desistiu. na minha familia tambem vivemos esse drama, perdi um irmao em 2007 e minha mãe parece ter morrido com ele, ela simplesmente desistiu de tudo, ela morre um pouco a cada dia, fica alheia a tudo e a todos, isso nos faz sofrer muito, nem todo mundo tem sua força e sua coragem. Te admiro ainda mais. Te amo pra sempre.
Mara Andrade

o texto pegadas na areia e bem pra nos que perdemos alguem obrigada pelo exemplo de força jesus e nos seus fas te amamos

resposta para o assis;acho que respeito e amor ao proximo e antes de tudo saber respeitar a religiao de outras pessoas amigo vc esta no blog errado despeje suas frustraçoes religiosas em outro lugar

resposta para o assis;acho que respeito e amor ao proximo e antes de tudo saber respeitar a religiao de outras pessoas amigo vc esta no blog errado despeje suas frustraçoes religiosas em outro lugar

A novela "A Viagem" é de Ivani Ribeiro, e não de Janete Clair.

Segue em frente. Deus sabe agir no tempo certo.

Segue em frente. Deus sabe agir no tempo certo.